sexta-feira, 24 de maio de 2013

EXISTE UMA AGENDA ANTIMÉDICA NA IMPRENSA BRASILEIRA

A agenda “antimédicos” na imprensa
Por Flávio Paranhos em 24/07/2012 na edição 704
Original do Observatório da Imprensa em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed704_a_agenda_antimedicos_na_imprensa


Acredito que não, embora possa até haver possíveis focos de antipatia mútua. Mas, de certa forma, seria até melhor que fosse o caso. Pois, então, não seria o caso de preguiça, despreparo, leviandade. Para estas não há remédio, ou há, mas de aplicação lenta e custosa. Com antipatias talvez lidássemos mais facilmente. Sendo a atitude científica caracterizada pela preocupação obstinada em investigar algo com rigor, em profundidade, despindo-se de prejulgamentos para que estes não se imiscuam sorrateiramente no processo, enviesando-o, “jornalismo” será o antônimo disso. Pelo menos é o que sentimos em diversas situações de abordagem jornalística a questões ligadas à medicina e saúde.

Um exemplo clássico é a postura diante do “caos na saúde pública”. Quase sempre que se quer fazer uma reportagem a esse respeito, vai-se direto à parte mais fácil, os médicos da linha de frente dessa guerra. Cunham-se, então, manchetes óbvias tais como: “Consulta de 30 segundos”; “Médicos faltam ao trabalho”; “Paciente morre na fila por falta de médico”; “Médicos não cumprem carga horária”. Por analogia, é como se estivéssemos diante de um paciente com câncer que está com a imunidade baixa, possibilitando doenças oportunistas, entre elas uma de pele, feia, e a preocupação fosse somente com essa, nem se importando com o câncer. Seria um “erro médico”, claro. É um “erro jornalístico”?

Função privativa

Minha disciplina (Formação Biopsicossocial do Médico) constitui-se essencialmente de temas em Bioética e há uma aula intitulada “Medicina e Imprensa” para a qual sempre convido um jornalista. “Médicos não cumprem carga horária” foi a manchete de domingo assinada por um jornalista premiado que convidei. Deixamos que ele apresentasse, todo orgulhoso, seu trabalho de investigação e reportagem dessa matéria e outras relacionadas à saúde. Por fim, mostramos a ele que três dias depois, escondida no meio do jornal, vinha a informação: “Outro profissionais de saúde também não cumprem a carga horária.” Por que os médicos mereceram manchete enorme no domingo e os demais, três dias depois e sem alarde? Não teria sido mais justo “Nenhum profissional da saúde cumpre carga horária”? Ou melhor, investigar primeiro por que isso acontece a apresentar uma rica matéria com causas e consequências? Pego de surpresa, nosso convidado riu sem graça e respondeu: “É que com médico dá mais ibope.”

Uma outra aula que tenho é denominada “Ato Médico”. O objetivo é apresentar aos alunos o conteúdo do projeto que ficou conhecido com esse nome para que não ajam como a maioria das pessoas, posicionando-se contra ou a favor sem saber do que se trata, de verdade. Uma das coisas que discutimos é o que chamo de “levianômetro”. Pergunte a alguém o que acha do projeto. Se a resposta for contra ou a favor, peça para citar um artigo. Se a pessoa não souber (imensa maioria), estará lá em cima no marcador do “levianômetro”.

No caso dos contrários ao projeto, há ainda o medidor de má-fé. Se a pessoa disser que no projeto está escrito que somente os médicos poderão chefiar serviços de saúde, estará lá em cima no medidor. Isso não existe no projeto. O que existe é que somente médicos poderão chefiar serviços médicos. Pelo mesmo motivo que somente enfermeiros podem chefiar serviços de enfermagem e assim também para todas as demais profissões da saúde. Dãããã, como diriam adolescentes. Mas, pelo visto, não é óbvio o suficiente. Foi preciso acrescentar um “parágrafo único”: “A direção administrativa de serviços de saúde não constitui função privativa do médico.” De nada adiantou. Ainda se ouve e se lê que o projeto diz que “somente médicos podem chefiar serviços de saúde”.

Informação básica

Há mais ou menos um mês, meu “levianômetro” e meu “medidor de má-fé” estouraram. Foi demais para eles a leitura do artigo de Hélio Schwartsman na Folha de S.Paulo de 15/6/2012. Difícil colher ali o que é pior. A coleção de desinformações é tão grande que não é possível creditar somente à preguiça e desleixo.

Mas Schwartsman bate todos os recordes mesmo quando escreve isso aqui: “Na mesma linha vai o art. 5º, que proíbe os não médicos de chefiar serviços médicos ou lecionar disciplinas médicas. Isso numa época em que, na ciência, as fronteiras entre medicina, biologia, química, física etc. são cada vez mais difusas.” Veja que ele interpreta “serviço médico” como “serviço de saúde”, mas isso não chega a ser novidade, como dito acima – trata-se do apontador de má-fé mais frequente. Porém, ele acrescenta algo novo que, de tão grosseiro, nunca ninguém tinha tido a infelicidade de cometer. “Lecionar disciplinas médicas” não é sinônimo de “lecionar numa faculdade de medicina”. O curso médico tem (e continuará tendo, pois o projeto não proíbe isso) inúmeras disciplinas que não só podem, como devem, ser lecionadas por não médicos. Enfermeiros, psicólogos, sociólogos, teólogos, filósofos, fonoaudiólogos, químicos, biólogos, administradores, fisioterapeutas são e serão bem-vindos, não só como professores, mas como pesquisadores, dentro de uma faculdade de medicina. As disciplinas que poderão lecionar são todas aquelas que não exigem conhecimento técnico específico médico. E o que seriam essas que exigem isso? As chamadas “disciplinas médicas”, tais como cardiologia, oftalmologia, cirurgia geral etc., etc. Dãããã, Hélio. Ou você imagina que um químico pode ensinar um acadêmico ou residente a operar catarata?

Essa é uma informação tão básica, tão primária, tão fácil de checar, que é difícil acreditar que um jornalista do maior diário do país não tenha capacidade para tanto. Em casos assim a tentação é responder: Sim, há uma agenda anti-médicos na imprensa.

***

[Flávio Paranhos é médico, doutor (research fellow em Harvard) em Oftalmologia, mestre (visiting fellow em Tufts) em Filosofia e professor do Departamento de Medicina da PUC-Goiás]

11 comentários:

JOSÉ ALBERTO ARMÊNIO disse...

Dá + ibope.
E julgam ter + $$ para indenizações.
Doce ilusão.
Neste país, professor que ensina para a Vida e médico que cuida da Vida, não estão ganhando para Viver dignamente !
Isso certamente reflete na qualidade de ambos.

Heltron Xavier disse...

Gostei "levianometro", nesta materia ninguém bate a perícia medica. De longe a mais insultada.

Regi disse...

24/05/2013 - 13h00

Ministro diz querer 'quebrar tabu' sobre contratação de médicos estrangeiros


Publicidade



FÁBIO GUIBU
DO RECIFE





O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou nesta sexta-feira (24), no Recife (PE), que enfrentará o debate com a categoria dos médicos no país para "quebrar um tabu" em relação à contratação de médicos estrangeiros.

Padilha quer colocar em prática um plano de atração de médicos formados em outro países para suprir de forma emergencial a falta de profissionais em áreas carentes e distantes do Brasil.

Brasil acumulou deficit de 54 mil médicos na última década, diz ministério
Conselho de medicina propõe regras para estrangeiros atuarem no Brasil

"Não pode ser tabu o Ministério da Saúde fazer uma política de atração de médicos estrangeiros, porque não é tabu em lugar nenhum do mundo", disse.

"Na Inglaterra, 40% dos médicos foram formados fora da Inglaterra. Nos Estados Unidos, de cada quatro médicos que atendem o povo americano um foi formado fora do país. E no Brasil, apenas 1% dos médicos foram formados fora", declarou.

Padilha confirmou que o governo brasileiro já conversa com outros países para trazer esses profissionais e citou a Espanha onde, segundo ele, há 20 mil médicos desempregados devido à crise econômica internacional.

"Eu, como ministro da Saúde, não vou ficar vendo nosso povo precisando de médico e vendo a possibilidade de a gente atrair profissionais com qualidade para atuar exclusivamente nas áreas carentes, nas periferias das grandes cidades e nos municípios do interior", afirmou. O governo prevê a contratação por um período de três anos.

Padilha esteve no Recife para participar da solenidade de entrega de 47 ambulâncias do Samu, com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

aldofranklin disse...

Companheiro Padilha, vc pode importar seus medicos de onde vc quiser! Exercer a Medicina nesse País ta tão difícil, a profissão além de árdua é tão pouco valorizada, que fazer qualquer coisa ja rende mais frutos do que ser medico!
Quando eu vendo um jogo de rodas meu lucro é 1 mil pelo menos! 4 pneu aro 17 é mais 500 mangos de lucro...então vou ser medico pra que? Um corte de cabelo é 70 pilas num canto um pouco melhor, uma faxina em SP vc nao consegue por menos de 130 + condução, então ser medico e receber 12 pilas por consulta de convênio nao dá!
O medico importado vai tirar foto e enviar pro seu País de Origem! O Brasil vai ser desmascarado em mais uma falácia!
Vc anda na rua, vc vê aqueles carrões, é de medico? É 1 em 1000! Agora vc vai perguntar pro dono do carrão, ele é vendedor, é corretor, é gestor, é politico, ele é qualquer coisa menos medico!
Agora e a moradia? Vai ter q morar numa caixa de fósforo pois o cobertor ta curto!
Vamos ser realista, vc estudar 10 anos pra exercer uma profissão e depois nao ser valorizado e so levar paulada?! Pode trazer seus estrangeiros Companheiro, "tô pouco preu"!!!!
Ps.: quem tiver interesse da franquia da marca Ladrox o valor é 26 mil, o endereco é www.ladroxwheels.com! Entregamos pra todo o Brasil! Pense e seja representante! Qualquer coisa so dá um toque! Ah, o valor é parcelado! A roda mais cara a margem é 5 mil reais, aro 26! Nao tem erro! E se montar um local pra fazer alinhamento e balanceamento, cambagem, roda, pneu, parafuso e válvula ai vc vai ver o que é dinheiro Dr!
Fui q agora vou jantar hehe, no shopping claro hehe

Fernando Antônio disse...

CRM provisório por 3 anos,,,

sem o Revalida.

JOSÉ ALBERTO ARMÊNIO disse...

Cadê o fórum da anmp ?
Promessa de campanha que seria a 1º ação.
Não foi.
A 1ª foi a criação da carreata.

Fernando Antônio disse...

CFM - 23/05/13

Propõe vínculo de CLT com o Ministério da Saúde para os médicos brasileiros que ocupem as 13 mil vagas de generalista no PSF no interior do Brasil,,, ligados ao Provab que dá 10 à 20% na nota da prova de Residência Médica/MEC.

Herbert disse...

Padilha, hipócrita?

Herbert disse...

Cada médico desses, que entrar sem revalida e puder trabalhar graças ao esforços do Dr Padilha, quando errar deve ter como co-autor do erro o nobre ministro Padilha.

Herbert disse...

A mesma imprensa que luta contra a lei da mordaça, se esquece disso rapidamente quando afagada pelo poder. Muitos jornalistas falecidos, de peso e de valor, devem estar rolando nos seus túmulos quando percebem o que é parte de seus colegas atuais.

Alexander Kutassy disse...

Quando é que teremos um Ministro da Saúde que realmente valha a calça que veste? Até agora, como informado acima, a mentalidade não passa da "distribuição de ambulâncias". A pretensão de importar médicos não passa de exemplar demonstração de total desconhecimento da realidade brasileira em termos das necessidade da administração em saúde para o povo brasileiro, além de total estupidez e ignorância de comportamento em relação à classe médica do país.