sábado, 22 de setembro de 2012

O TRIUNFO DO ESTADO-BABÁ


POR ANTONY MUELLER · 09/05/2012 ·



Entre a multidão das etiquetas que foram inventadas para caracterizar o moderno sistema político poucos aparecem mais adequadas que chamar o estado moderno “estado-babá”. Capitalismo, imperialismo, estado de bem-estar, estado de guerra – cada um dessas características cabe mais ou menos para um ou outro estado moderno, mas o que une países tão diferentes como, por exemplo, Dinamarca, os Estados Unidos e o Brasil, é que apesar de todas as suas diferenças são todos estados-babá.

As raízes do estado-babá

Tudo o que foi deixado do capitalismo liberal desapareceu nas cinzas da Primeira Guerra Mundial. A economia de guerra tornou-se a grande inspiração para o planejamento central e o controle governamental. Esta guerra de 1914 a 1918 foi o ventre que deu à luz o comunismo e o nazismo e também o berço do moderno estado de bem-estar intervencionista. Este estado que promete a proteção social, mas pratica guerras permanentes contra inimigos reais e imaginários dentro e fora do país tornou-se o sistema político dominante desde o início do século 20.

Os princípios deste estado moderno são a corrupção e o suborno. Os beneficiários da gama de suborno podem ser empresas ou sindicatos, podem ser privilégios exorbitantes para a burocracia em geral ou para setores específicos, tais como o militar ou o fomento de certas áreas de pesquisa científica selecionadas por critérios duvidosos. Entre as muitas variedades se destacam os variantes do estado de bem-estar e da guerra com suas subcategorias que caracterizam este estado predatório como estado intervencionista, burocrático, corporativista, plutocrático e cleptocrático.

Enquanto no século 19 ainda era principalmente a defesa da liberdade que servia como critério para limitar a atividade estatal, esse critério desapareceu em favor da eficiência econômica. O moderno estado de bem-estar e da guerra não está preocupado com a preservação da liberdade; a única barreira contra a sua expansão infinita são os limites estabelecidos pela eficiência econômica. De princípio, o capitalismo livre é odiado pelos estadistas. Mas sabendo que a abolição seria suicida para a regra do estado, o capitalismo livre está tolerado parcialmente em um nicho dentro de limites impostos pelo estado para servir como a vaca que dá leite.

O estado-babá em ação

O estado social moderno esconde suas raízes fascistas, comunistas e bélicas e apresenta-se hoje como o estado-babá. O estado-babá tem sua origem no movimento progressista nos Estados Unidos, que lançou seu programa totalitário de controle comportamental que varia da proibição e da esterilização forçada até aeugenia e eutanásia. Enquanto o fascismo e o comunismo mostravam o lado negro deste sistema, o estado-babá mostra seu lado aparentemente ensolarado. Enquanto o fascismo e o comunismo transformavam nações inteiras em brutos, o moderno estado-babá cria a infantilização de seus cidadãos. Não é só “panem et circensis” que acompanha o cuidado universal do berço ao túmulo; o estado-babá também provoca uma confusão de valores, um relativismo desenfreado. A expansão do controle comportamental por parte do estado abrange todas as áreas da existência humana, com guerras sem fim sendo travada internamente (como a “guerra contra drogas”) e externamente (como a “guerra contra o terrorismo”).

Da mesma maneira, o estado-babá apresenta-se como a agência que protege o bebê contra tabagismo, álcool, obesidade, carne vermelha e até contra quedas de bicicleta sem proteção. Desta maneira a sociedade moderna é empurrada para um estado de agitação permanente quando todos são tratados como crianças. A combinação entre a agitação e a infantilização traz o cidadão a um estado de confusão mental e exaustão psíquica que fornece o caminho para manipulações de todos os tipos – sejam políticas ou comerciais.

Como é baseado em suborno, o sistema do estado de bem-estar e da guerra esta em permanente necessidade financeira. As autoridades estão sempre desesperadas com o crescimento econômico e o emprego, porque daí que os impostos vêm. Receitas fiscais, no entanto, nunca serão suficientes para financiar os gastos em suborno para manter o clientelismo e, portanto, precisa-se do financiamento pela dívida pública, que, por sua vez, torna este sistema inerentemente inflacionário e economicamente instável.

Crise sem fim

Enquanto o estado está em crise fiscal permanente e exposto ao carrossel selvagem das despesas, impostos, dívidas e crises fiscais, ao mesmo tempo o estado moderno inventa todos os dias novas regulamentações, novos problemas e novas deficiências que só podem ser curados por este mesmo estado. Assim, surge a pressão permanente e desumana de colocar todos como escravos no esforço de aumentar a eficiência da economia – do mesmo jeito como o senhor procura incentivar os seus escravos para maior produção. Enquanto os governos e suas burocracias atuam como campeões de ineficiência e se mostram como mestres do desperdício dos recursos, os líderes do estado intervencionista de bem-estar anunciam cotidianamente novos apelos que a economia deve tornar-se mais competitiva, precisaria acelerar o progresso tecnológico e deveria crescer mais rápido. Enquanto o capitalismo de estado afirma ter o “bem-estar” como objetivo principal, a força de trabalho está sob um permanente reinado de terror para atender normas imaginárias de desempenho. Ao mesmo tempo o comportamento pessoal está sob a vigilância constante segundo o critério de sua adequação “social”. Como a babá na vida real, o estado-babá anuncia que tudo que ele quer é o melhor para o bebê e que o bebê precisa obedecer porque senão será punido.

O estado intervencionista de bem-estar e de guerra cria uma atmosfera febril com seu hiperativismo. Quando não há problemas, precisam ser inventados; quando não há inimigos, precisam ser criados – internamente e externamente. Todos os dias as autoridades buscam encontrar um novo grupo que é desfavorecido e vulnerável e que “precisa” da ajuda da babá-governante. Há evidências quase ilimitadas de que o moderno estado intervencionista não resolve problemas, mas cria cada vez mais problemas. Seja saúde ou educação, seja segurança interna ou externa, o estado moderno não se mostra capaz de gerar soluções. O que ocorre no Brasil não é muito diferente também em outros países: incapaz de prevenir crimes, há cada vez mais pessoas encarceiradas; incapaz de resolver o caos do trânsito, o que o estado faz é impor mais duras multas e punições; incapaz de aprimorar a educação básica no país, o governo impõe cotas nas universidades.

A escravidão moderna

Querendo ou não, o “cidadão” moderno desistiu da sua liberdade original e da sua responsabilidade individual e entregou-as ao estado. O Leviatã se tornou totalitário.

Não é mais a segurança física o ponto principal, mas cada aspecto da existência humana. O homem moderno abandonou mais liberdade do que o escravo da antiguidade porque deixou não só o seu corpo físico em cativeiro, mas entregou seus pensamentos também.

Analisando a “Democracia na América” (1835), Alexis de Tocqueville já alertava sobre o risco de a democracia transformar o estado de direito em um sistema de ditadura da maioria. O “contrato social”, um acordo geral de submissão voluntária, serve apenas aos donos do poder. Como tal, o tratado expõe sua falha fundamental. O próprio acordo mostra seu caráter ilegítimo pelo fato de que ninguém no seu perfeito juízo iria celebrar um contrato que implica a incapacidade mental do cidadão. Por esta lógica, o escravo moderno perdeu o seu direito de voz política.

Como Imanuel Kant explicou em 1793, um governo que expõe o princípio da benevolência com o povo como um pai faz para os seus filhos representa “o maior concebível despotismo”. Um governo que trata os seus cidadãos como bebês e dita um determinado caminho da felicidade atua como déspota e, como o povo tem suas próprias ideias de felicidade, transforma os cidadãos em rebeldes.

Em nosso tempo o comunismo falhou, mas na forma da “tirania da maioria”, como já alertou John Stuart Mill no seu Ensaio sobre a Liberdade de 1859, a ditadura do proletariado contamina a “opinião pública”. Hoje em dia, muitos intelectuais e o sistema de justiça em vez de defenderem as liberdades individuais funcionam como propagandistas e ativistas dos preconceitos modernos que chegam vestidos com as roupas do “politicamente correto” enquanto são nada mais que uma opinião pública distorcida.

Conclusão

O principal evento para lançar o estado de bem-estar e da guerra do século 20 foi a Primeira Guerra Mundial. Esta guerra instalou o recrutamento em massa e um surto de fanatismo ideológico. Esta guerra preparou a plataforma do lançamento para o fascismo e o nacional-socialismo, o comunismo e todas as outras formas de intervencionismo estatal e de totalitarismo ideológico. A mentalidade para o estado-babá já foi preparada pelo movimento progressista americano. Hoje em dia, este sistema mostra a sua cara aparentemente benevolente e “progressista” na forma do estado-babá enquanto o seu lado totalitário se manifesta como o despotismo da opinião pública na sua moderna forma de ditadura do proletariado.

SOBRE O AUTOR
Antony P. Mueller é doutor em economia pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, e atualmente atua como professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Ele é o fundador do Continental Economics Institute e mantém os blogsEconomia Nova, Cash and Currencies e Sociologia econômica.
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Nota do blogueiro: Esse texto condensa tudo aquilo que estamos falando há anos sobre a vitimização e infantilização da sociedade, o estado de bem estar social que massacra a liberdade e o "direito à felicidade" sem contrapartidas, que explicam exatamente a situação pelo qual nós médicos estamos passando nesse século, em especial os médicos peritos do INSS, que são vistos como barreiras para a vacina (benefício financeiro) contra a frustração coletiva gerada pelo verdadeiro estado repressor em nome do social.  

Hoje em dia há uma crescente onda de leis “politicamente corretas” que restringem os direitos dos cidadãos, muitas vezes passando despercebidas pela população. O interesse em manter a população infantilizada e vitimizada só nasce naqueles que se apresentam para serem seus curadores, que por sua vez exercem essa curadoria sob a forma de restrição de liberdade para manter a população mais vítima e mais dependente de sua atuação. 

Quem padece nesse sistema são os que querem pensar livremente, os que não se aceitam como vítimas, os que trabalham de verdade e não querem ser tutelados por terceiros em seus atos do cotidiano. O INSS é a representação física do Estado-Babá: paternalista, patrimonialista, corrupto e subornável, vitimiza e infantiliza seus usuários e tenta tutelar e impor o terror a seus funcionários para ao mesmo tempo manter o faturamento e a imagem de "bom pai".

3 comentários:

Paulo Taveira disse...

Excelente artigo e excelente teoria. No entanto não acredito que o INSS administrado no seu dia a dia por pessoas semi alfabetizadas seja capaz de teorizar a este ponto. Ali é o suborno e a corrupção em estado puro , sem mais, exceto a ignorância!Portanto a estudar se estes elementos conseguem fazer o caminho inverso do descrito no excelente artigo, o que é bastante possível. No meu entender teoria já comprovada neste "case".

Angelo Araujo disse...

Analisado o texto de forma crítica, observa-se uma influência Nietzshiana e Foucaultiana na sua composição. Partindo da idéia de reconstrução de uma nova ordem, desfaçada, benevolente e protetora, na qual o estado afaga as necessidades diversas de um povo, sociedade, necessidades essas, como descreve o autor "... imaginárias ... ou muita das vezes criadas pelo próprio estado...", o clientelismo fica claro como prática declarada aqui no Brasil, em sua forma diversa. As formas de "estado Babá" protetor, como refere o próprio autor, tem configurações diferentes relacionadas com os caracteres socio-cultural e a identidade de uma população. A forma ditatorial de controle comportamental e moral da sociedade, segue como um ciclo vicioso de caráter progressivo, retro-alimentador e cada vez mais tomam dimensões em forma de grandes "bolhas", que se rompem para formar novas bolhinhas, dando origem a novos ciclos, que fortalece o estado e aumenta a sua abrangência. Esse comportamento progressista e de certo modo "positivista", Marx referia em sua "dialética transformista", na qual foi configurada para a forma de organização social da época, que em parte poderá ser aplicada ainda hoje.
Na era do conhecimento, na qual a aquisição e a troca de informação ocorrem de uma forma muito mais rápida, o controle social do estado, a forma de clientelismo praticada no passado, os moldes das contravenções "corrupção", a forma de sociabilizar passarão por transformações dinâmicas que poderão aumentar os leques de proteção e acolhimento do estado, inchando cada vez mais a máquina financeira do estado, fazendo que aumente mais a servidão moderna e fortaleça os ciclos econômicos. Esse aspecto, parte de um contra-ponto dos neo-classistas, contudo fica uma pergunta: O objetivo é clonar servidores, reproduzindo " sociedades perfeitas " ou será a tentativa de estourar uma outra grande bolha que formou para que ocorra novos renascimentos?
A imprevisibilidade da vida, fascina igual a economia e o controle social..... Ângelo Augusto Araújo

Angelo Araujo disse...
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