quarta-feira, 14 de março de 2012

PONTO DE VISTA - Médico não é tão importante para não reagir ao desrespeito

"Na equação da relação médico-paciente, o médico está na ponta mais forte. É ele que foi procurado e detém o poder. O outro - que busca o tratamento - é a parte frágil. Sendo assim, cabe ao mais forte oferecer a quem dele depende o conforto esperado. Pois quem está humilhado pela doença não tem essa força, e não podemos dele exigir isso. O paciente pode gritar, xingar, reclamar, mas mesmo assim, o médico deve exercer seu papel acolhedor, repassando calma, tranquilidade e oferendo confiança."
Rubens Silva - Conselheiro CFM- Jornal Medicina JAN/2012 - Página 07

As relações dinâmicas mútuas entre pessoas que fazem uma sociedade não podem e nem devem ser petrificadas por nossas virtudes teóricas tradicionais. Isso não depende no nosso arbítrio. É que simplesmente não há quem consiga resistir à tempestade do novo que destrói e reconstrói as eras. Nada, absolutamente nada, escapa das mãos puras e imperfeitas do caos e da interação naturalíssima do estímulo-resposta.

A água pressiona com muita força, cansa, míngua e depois vai lentamente. A pedra não deixa, mas lentamente se deforma. Assim foram feitos os arrecifes, as cavernas, as cachoeiras, os lagos e os rios. A água é a sociedade. A pedra, a norma. E surge o mesmo ciclo que destruiu e reconstruiu os impérios, a escravidão, a pena de morte e a pré-destinação das castas. E surge o destino invariável que contruiu e desconstruiu os conceitos de pecado, moralidade, ética e, claro, do crime. Alguns se sustentam outros passam em branco no vermelho que sacode o mundo. Na medicina não é diferente.

Se pode até esconder a distância entre intenção e ato, porém não por muito tempo. Nem paciente nem médicos escondem e se enganam mais nestes tempos. Hoje vivemos numa era em que a relação médico paciente é estreita em conhecimento e distante em calor humano - influencia das redes sociais talvez. Hoje o saber sobre o nascer e o morrer não está na nossa biblioteca privada, mas está num aparelho de telefone celular dentro do bolso de um pedreiro. Hoje pacientes chegam aos consultórios para testar os seus médicos e não exatamente para seguí-los. Hoje pacientes não esperam, não ouvem, não calam e não suportam. Exigem aquilo que pagam comprando filé por preço de banana e pedindo troco. Desconfiados procuram desde o início por nossos erros mais imperceptíveis e constantemente em cada gesto, palavra dita ou escrita. O paciente é um fiscal do médico e o médico um serviço.... Infelizmente.

Às vezes penso que o médico tradicional ainda esperneia em vão na sala do inconformismo pela inegável e irreversível redução de status social. Mas está por todo lugar. Hoje vivemos numa era em que a subtração do poder econômico, a proliferação excessiva de novos profissionais e a projeção social invertida da classe médica a torna como outra qualquer, embora com ressalvas, concordo. Bem, neste contexto, talvez valorizar e demonstrar o lado simples do comum do médico - o sofrer, o chorar, o penar e o privar - fosse importante para sua sobrevivência. Será que orientar "aguente e suporte" pelo paciente é mesmo necessário?

Não tenho dificuldade para compreender a idéia do auto sacrifício profissional tampouco do sofrimento humano. Aliás, assisti esse filme muitas vezes. É que atribuir a condição de "pobres criaturas indefesas" a pacientes é um pensamento ultrapassado, penso eu, e que pode traduzir apenas uma arrogância do próprio profissional médico em se achar um "Ser superior". Ora, aceitar que se possa ser vilependiado, chantageado e violentado moralmente, por vezes pior que a física, é constrangedor. Pior ainda é não demonstrar indignação e insatisfação com a injúria a sua pessoa em quaisquer circunstâncias, aí já é um tanto assustador.

Creio, do âmago profundo, que a resposta ao desrespeito, ao destrato, ao destempero de pacientes pode e deve e precisa acontecer para que haja equilibrio das partes na relação médico-paciente nos dias atuais - o paciente "mais fraco" e o médico "mais forte" estão a cada dia desaparecendo assim como pessoas dispostas a sacrifícios - desde o celibato ao posto de saúde do SUS. Penso sim que os médicos devem reagir da forma mais "normal" desde a rutura imediata da relação por suspeição até as reparações em tribunais. Para finalizar, por favor, o médico não é tão importante para rejeitar os direitos e garantias legais e também o código de ética não se sobrepõe as leis. O paciente não é tão importante para que xingue um profissional respeitado e não seja punido. Estamos numa nova era de sociedade em que se pretende a igualdade numa relação com obrigações e responsabilidades, deveres e direito de ambas as partes.

10 comentários:

Francisco Cardoso disse...

Síndrome do dodói, a "vítima" pode tudo. Vítima do que exatamente ainda não se sabe bem...

Esse paternalismo excessivo, essa síndrome do coitado, do dodói, essa infantilização nas relações estão destruindo a sociedade.

Herbert disse...

Pelo amor de Deus. Será que o nobre conselheiro já foi agredido e desrespeitado? Médico tem que aceitar tudo? Não merece respeito? Estou pasmo.

MBMK disse...

Gostaria de lembrar aqui as diferenças ABISSAIS existentes entre a relação médico-paciente de que trata o texto e a relação de perito-periciando que vivenciamos no nosso dia-a-dia.
Nesta sempre haverá a probabilidade da busca ao ganho secundário através da intimidação e/ou agressão.

MBMK disse...

Gostaria de lembrar aqui as diferenças ABISSAIS existentes entre a relação médico-paciente de que trata o texto e a relação de perito-periciando que vivenciamos no nosso dia-a-dia.
Nesta sempre haverá a probabilidade da busca ao ganho secundário através da intimidação e/ou agressão.

aldofranklin disse...

O perito pra se adaptar a esta sindrome de alta virulencia, faz exame físico "a distância", com os olhos, pois se tocar, tem grito, choro e "eu fui agredido pelo perito"...ou a clássica: "ele me apertou com força"...

Herbert disse...

Discordo frontalmente do nobre Conselheiro. O médico tem o dever de respeitar mas tem o direito de ser respeitado tb. Segundo a linha de pensamento do nobre conselheiro, o juíz noa deveria prender quemo desacatasse, idem com delegados de polícias, militares e etc, afinal, são a parte mais forte na discussão. Temos que crescer como pessoas e como país. Direitos e deveres andam de mãos dadas. Um médico, ainda mais conselheiro, deveria ser multiplicador de boas relações, pregando o respeito mútuo e não confundir ideologias pessoais com direito coletivo.

aldofranklin disse...

Companheiro vamos ser honestos aqui:
Tem muita gente que esta no cargo nao por ter mérito, mas o critério da Indicação política! Veja o caso deste conselheiro: despreparado pro cargo! Onde já se viu o medico nao ser respeitado e passar a mao na cabeça do agressor?! E se ele agredir um delegado, nAo vai preso porque é o elo mais fraco?!
Totalmente despreparado pra ser Conselheiro mas vai ver de quem ele é compadre?!...

E.G. disse...

Adinvinha porque chegamos no fundo do poço ?

Francisco Cardoso disse...

O nobre Conselheiro deve estar se reportando a uma medicina do passado, com uma população do passado... Hoje estamos na era da informação, na era do bem estar social, onde felicidade e sucesso são direitos adquiridos, onde justiça social é você dar o que vc trabalhou para quem não trabalha e todo fracasso é culpa do "estado", que dependente do marketing para se eleger, sustenta essa sociedade vitimizada e infantil, onde tudo é dodói, tudo ofende e não atingir a felicidade é "humilhante".

Heltron Israel disse...

Chico é exatamente isso.