Eu sempre achei que garantir assistência médica adequada era um direito a ser garantido à gestante, mas lendo recente projeto de lei apresentado ao Congresso Nacional sob aplausos da dita "opinião progressista" que versa sobre o tema eu aprendi que na verdade a gestante deve ter o direito da " mínima intervenção médica" e que o simples ato de anestesiar uma parturiente poderá ser considerado algo tão grave que será definido como "violência obstétrica". Sob esse infame rótulo também encontram-se todos os procedimentos e rotinas habituais da medicina obstétrica que visam a garantir a segurança ao filho e à mãe durante o livramento do bebê.
Pode parecer estranho, porém mais estranho ainda foi um recente "estudo" feito pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde que "acusa" o médico brasileiro de forçar a mulher nativa a ter que se submeter a cirurgias de cesárea para ter seus filhos e que isso seria um absurdo. A base da crítica seriam as "recomendações da OMS" que dizem que taxas de cesarianas acima de 15% seriam "inadequadas" e portanto teriam que ser combatidas. O tal "estudo" da Fiocruz achou taxas de 88% de cesarianas na rede privada e em torno de 55% na rede pública. Absurdo! Exclamaram as vozes do politicamente correto, afinal de contas se a OMS disse que 15% é o máximo, deve ser a verdade, não?
Eu sempre fui chato e sempre paguei o preço disso. Uma das minhas chatices é saber de onde vem as coisas, como por exemplo, de onde vem essa informação de que "A OMS determina(***) que a taxa máxima de cesarianas por país deve ser de 15%"?
Procurando as citações, só encontro referências vagas às "determinações" da OMS em declarações em 1996, 1989 e por ai. Nos documentos brasileiros, nada. Indo para os documentos americanos e europeus, normalmente melhores embasados e referenciados (culpa nossa e não deles) achei de onde veio o dado dos 15%.
Em agosto de 1985 a revista Lancet publicou um artigo intitulado "Appropriate technology for birth" assinado por "especialistas" da OMS que, em reunião na cidade de Fortaleza (Brasil), decidiram criar um painel de recomendações da OMS para o que chamaram de "revisão dos métodos (tecnologia) de nascimento" no mundo. Imaginem só que isso foi em Fortaleza, em 1985, quando 50 (sim, apenas cinquenta) "especialistas" da OMS, que incluíam economistas, sociólogos, políticos, ativistas, administradores em saúde, enfermeiros, piscólogos, epidemiologistas, e até mesmo médicos, "decidiram", sem nenhum tipo de estudo científico, estatística ou dados acumulados, criar uma série de "recomendações" em nome da OMS sobre o que seria "desejável" para um "parto saudável" no planeta.
A lista de recomendações é uma lista de ataques à medicina, uma ode aos paramédicos e um recuo em um século das verdadeiras tecnologias em saúde obstétrica que fizeram desabar no século XX as taxas de morbi-mortalidade neonatal e maternas. Abaixo a reprodução do artigo:
Ou seja, em 1985, 50 experts das mais diversas áreas, quase nenhum médico, mas todos ativistas, se reúnem no Brasil e emitem um painel de recomendações sem nenhuma evidência de absolutamente nada, em um claro exercício de achismo que não resiste ao menor questionamento, e decidem que dali para frente somente 15% das bilhões de crianças que iriam nascer poderiam sê-lo através de cesária e o resto obrigatoriamente por parto normal senão seria uma violação "injustificável".
Injustificável do que? Mas de onde tiraram essa estatística de 15%? Quem disse que o motivo da baixa mortalidade nos países citados estava relacionado ao número de cesarianas e não ao impecável sistema de saúde, saneamento, vacinas e nutrição que essa população recebe, por exemplo? Como controlar os bias, os vieses?
Esses 50 especialistas estavam querendo fazer um painel de recomendações ou na verdade usando o tema para "mudar o sistema", politicamente engajados?
A afirmação de que taxas de cesarianas acima de 15% são erradas não procede. A OMS não tem como justificar essa alegação, a não ser um painel de recomendações, sem nenhum tipo de referencial estatístico-científico, feito há 30 anos, por 50 ativistas reunidos em Fortaleza. Não há a menor prova de que taxas de 20, 30, 50 ou 100% de cesarianas, por si só, sejam boas ou ruins para a maternidade de uma nação. Não há.
Lendo o tal estudo da Fiocruz, não há um parãmetro de controle sequer que permita afirmar que o número de cesáreas esteve associado com qualquer evento desfavorável ao bebê, muito menos a taxas de nascimentos precoces. Afirmar isso é uma levianidade e não à toa a pós-graduação da Fiocruz em saúde da mulher tem nota baixíssima (CAPES 4 -
Clique aqui) comparado a outros programas de excelência do mesmo instituto.
É o que acontece quando a militância se infiltra na ciência.
Mesmo não havendo ainda prova de relação direta, estamos vendo uma queda global das taxas de mortalidade materno-infantil relacionadas ao parto no Brasil e no planeta, associado a um aumento global nas taxas de cesarianas na mesma proporção. Nenhum país desenvolvido possui mais as taxas utópicas e desprovidas de embasamento científico de "15%" de cesarianas preconizadas pela OMS.
Lendo o PL do referido deputado e o estudo da Fiocruz, os ataques á cesariana são diretos e o tema é tratado quase como crime. E essa falsa argumentação da OMS é o sustentáculo de toda a mentira destilada nos textos do deputado e do estudo.
Por que isso? Simples. Se chama roubo de mercado. Sem sombra de dúvida o mercado em saúde se tornou o eldorado dos empregos hoje em dia. É o que mais cresce, paga e emprega em larga escala. Não à toa, cobiçado por dezenas de profissões que antes da década de 70 sequer se enxergavam como da "saúde", como psicólogos, advogados e engenheiros. No mercado da saúde, quem domina é o médico, pois é ele a quem cabe o poder do diagnóstico e terapêutica.
Está em curso uma tentativa de desconstrução da medicina, por parte desses grupos a quem este blog chama de paramédicos (desde os tradicionais até mesmo engenheiros e advogados) para usurpar nosso mercado de trabalho. Isto já estamos denunciado há anos. Para isso, é necessário primeiro criminalizar o ato médico (desumano, autoritário, medicocêntrico, egoísta, anti-ético) e depois propor uma alternativa não-médica (humanização, multiprofissional, naturalismo, biopsicosocial, holístico, ético) e assim se abrem as portas desse mercado rentável aos paramédicos arfando por empregos públicos, consultórios e consultorias.
O primeiro experimento foi na psiquiatria, na década de 70. Nesse caso até havia algo de fato a ser combatido e mudado, pois o modelo existente era criminoso pois muitos hospitais psiquiátricos e manicômios eram verdadeiros campos de concentração.
Mas ao invés de se resolver isso e se criar um modelo adequado de atenção psiquiátrica, os espertos resolveram acabar com a psiquiatria, a começar pelo nome, criando a "saúde mental" e nesse guarda-chuva se pendurou de tudo, até mesmo professor de piano. De um modelo hediondo, partiu-se para o "não-modelo", com poucos centros que não funcionam, doentes psiquiátricos desassistidos e abandonados, traumatizando e prejudicando famílias, cometendo homicídios, estupros e outros crimes ou então se matando, caíndo nas drogas (cracolândias) e hoje em dia o doente psiquiátrico só é de fato acolhido pelo Estado quando comete algum crime e vai pra cadeia. Exemplos não faltam.
A ganância de psicólogos, terapeutas e afins em roubar o mercado de trabalho dos psiquiatras pode ter sido bem sucedida, ajudados pela covardia, inaptidão e incompetência dos próprios psiquiatras que engoliram a seco o próprio suicídio como coletivo, mas na prática apenas fez o louco trocar de manicômio: do manicômio psiquiátrico foi para o manicômio judicial. Hoje em dia mente quem diz que não existe prisão perpétua no Brasil. Existe sim, apenas para uma pessoa: o preso psiquiátrico. Esse é o resultado de 40 anos da reforma psiquiátrica no Brasil.
Conforme vimos acima, agora está em curso o ataque a uma segunda área de atuação médica muito lucrativa e politicamente importante: A obstetrícia. Lançado em 1985 pela OMS, os ataques à obstetrícia estão completando 30 anos. A obstetrícia encontra-se em uma encruzilhada pois também foi inoperante em fazer valer o seu saber científico e ficou com medo da patrulha politicamente correta. Se continuar assim serão massacrados e veremos as crianças pobres do SUS serem massacradas pelos "experimentos naturais" nas casas de parto e afins que virão doravante se projetos como o do deputado energúmeno que subscreve o específico escreveu.
O governo certamente apóia esse modismo parte por filosofia e parte pelas enormes promessas de ECONOMIA DE GASTOS que ele pode gerar, ao se retirar o médico, sala cirúrgica, berçários e demais itens "caros" da conta da saúde pública.
Só que enquanto à mulher pobre do SUS o acesso a um parto seguro e sem dor será negado em nome do "humanismo", as esposas dos deputados, líderes partidários e demais apoiadores dessa filosofia hedionda continuarão a ter seus filhos nas melhores maternidades, com cesárea e com médicos.
A própria Presidente Dilma assistiu em um caríssimo hospital particular de Porto Alegre ao nascimento de seu neto, cuja mãe (filha da presidente) foi submetida a uma cesárea segura e sem riscos, feita por uma equipe médica qualificada e competente e que gerou um neto saudável e forte que é o xodó da mandatária da nação. Então que diabo de brincadeira é essa que se está fazendo no Brasil?
Estamos lidando com bebês. Não se pode fazer política com recém-nascidos. Nem negar à mãe pobre do SUS o direito a querer uma cesariana, ou forçá-la a se submeter a um perigoso parto normal e suas complicações graves ao bebê, em especial a anóxia neonatal. Se a pessoa já é necessitada, imagina com uma criança especial a carregar? O Estado vai prover assistência onde não provê nem transporte? Nunca conheci uma criança com paralisia cerebral oriunda de cesariana, mas todas que conheci vieram a esse mundo de parto normal, inclusive um parente meu, já falecido.
Enquanto isso, a sífilis neonatal se encontra em taxas vexaminatórias no Brasil, realmente absurdas, e a mortalidade neonatal em algumas regiões carentes deveria ser causa de renúncia coletiva de dirigentes. E estamos aqui, discutindo a desconstrução da medicina para dar emprego a paramédicos que querem brincar de medicina com a saúde dos outros.
Há algo de muito errado acontecendo e ou botamos a boca no trombone para protestar e denunciar essa farsa agora ou será tarde demais, como foi na psiquiatria.
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***Só voltando no tempo, há alguns anos, durante a construção do movimento pela autonomia do ato médico pericial, depois batizado de MEP pela ANMP, um dos entraves à nossa luta era a informação repetida ad nauseam pelo INSS e até mesmo pelo MPF de que as consultas médicas, segundo a OMS (opa!), deveriam ter em média 20 minutos.
Essa era a base da exigência de ambos (INSS e MPF) de 24 perícias em 8h de atendimento. Em um ato histórico e pioneiro, Luciana Coiro, colaboradora desse blog e perita médica em Porto Alegre, após procurar em todo lugar a origem desse dado, e não achar, consultou formalmente a OMS e eis o que recebemos como resposta da Organização Mundial da Saúde:
"the evaluation time are also dependent on the condition and treating phisician, I am afraid there are no specific recommedations on this",
Rachel Pedersen, Assistant, Disability and Reabilitation (DAR), Department of Violence and Injury Prevention and Disability, Noncommunicable Diseases and Mental Health World Health Organization
Essa mesma autoridade já havia se pronunciado em mail anterior informando que a WHO não propõe recomendações para tempo de tratamento em face da peculiaridade de cada caso. Ou seja, a OMS (WHO em Inglês) posicionou-se de forma INEQUÌVOCA que a tal "recomendação" de 20 minutos era mentirosa.
De onde veio então? Pesquisando, chegamos à antiga União Soviética, Conferência de Alma Ata, 1978, que entrou para a história como a base do "movimento da saúde básica", em um dos painéis foi citado o tempo médio de 20 minutos de atendimento por paciente como um referencial básico sem nenhum tipo de compromisso formal, tanto que não consta sequer da Declaração de Alma-Ata. Desmontado o mito dos 20 minutos, o MEP foi vitorioso.